APARECIDA, AS ELEIÇÕES E A DEMOCRACIA – Por irmão Marcelo Barros

O candidato do mal e do entreguismo foi acusado de estar planejando, se for eleito, retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de “padroeira do Brasil”. Isso nem poderia ser verdade, já que se trata de uma distinção dada pela hierarquia católica e só essa poderia mexer nisso. A única coisa que um presidente da República pode fazer seria abolir o feriado nacional de 12 de outubro, dia da festa de N. Sra Aparecida. O feriado nacional foi decretado pelo General Figueredo em 1980 e é sim da competência do governo federal.
Um Presidente que retirasse de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil suscitaria a revolta da maior parte da hierarquia católica e de grande parte do povo brasileiro, católico ou não. Do lado evangélico, muitos irmãos e irmãs de Igrejas histórias e pentecostais não entrariam diretamente na polêmica, mas poderiam pronunciar-se pela defesa da cultura popular brasileira, ligada a Aparecida. Provavelmente, o candidato conseguiria o apoio de numeroso grupo de evangélicos e pentecostais que veem na devoção à Aparecida, um fenômeno de superstição e idolatria, contrária ao Evangelho de Jesus.
No entanto, além dessa questão conjuntural, o tal boato falso revelou algo mais profundo e mais preocupante: muitos católicos reagiram a essa notícia, exatamente, como a massa católica reagiu em 1931, quando, pela influência de Dom Sebastião Leme, cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, o Papa Pio XI proclamou Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil e no ano seguinte, 1931, na data de 12 de outubro, no Rio de Janeiro, o cardeal inaugurou a estátua do Cristo Redentor no morro do Corcovado.
Assim, o maior líder católico no Brasil garantiu o prestígio e a força política necessária para impor ao governo e à sociedade laica os interesses do clero e o poder da Igreja no país, ainda então, considerado católico. O sistema de Cristandade, isso é, de uma Igreja ligada ao Estado como poder e que se expressa como religião civil já não existia desde os tempos do Império, mas a cultura continuava a mesma. É triste perceber que, em pleno século XXI, nesse contexto de mundo em que vivemos, essa cultura de dominação católica e de religião de massa continua, não apenas nos círculos católicos mais tradicionais, mas mesmo nos meios mais comprometidos com a renovação eclesial e do mundo.
Atualmente, todas as pessoas conscientes concordam que o Brasil é um Estado laico e deve continuar laico. Portanto, o povo brasileiro tem todo o direito de ter a religião que quiser seguir, ou nenhuma. A liberdade religiosa está assegurada pela atual Constituição Federal de 1988. Essa parte mais lúcida da sociedade reage quando escuta pastores pentecostais sugerirem que tal cidade pertence ao Cristo e expressarem que sonham com um Brasil pentecostal.
No entanto, grande parte dessa lucidez fica na metade do caminho, quando se trata de defender o Brasil católico, com feriados católicos e privilégios para a Igreja Católica, assegurados pela Concordata com o Vaticano.
Pessoalmente, imagino que Maria de Nazaré, discípula do profeta Jesus e esse mesmo, no seu intento de testemunhar ao mundo o projeto divino, estejam pouco preocupados com títulos como esse de padroeira do Brasil e prefiram ver o nosso povo empobrecido mais consciente dos seus direitos e mais capaz de votar para continuar a luta por uma mais profunda e verdadeira democracia, laica e pluricultural.
Comparando os dois candidatos a presidente com real chance de ser eleito, Lula e Flávio Bolsonaro, é óbvio que com Lula estará assegurado o caminho para garantirmos o regime democrático, a luta por direitos do Povo e da Natureza e a luta para que, de fato, o Brasil continue a ser um Estado laico. O outro candidato tem evidentes relações com milicianos, com a corrupção em muitos casos e já se declarou inúmeras vezes que pretende colocar o Brasil de joelhos, diante dos Estados Unidos.
Em muitos países, a tentação de um governo ditatorial e de tendência fascista tem sido característica básica da extrema-direita. O Brasil não pode cair nesta vala que trará a amputação da democracia e cortes brutais em direitos trabalhistas, previdenciários, humanos e ambientais, conquistados nas últimas décadas com muita luta, suor e sangue. Que, nessa hora grave das eleições presidenciais, estaduais e de grande parte do legislativo nacional, a fé e a espiritualidade de todas as religiões e caminhos espirituais nos guiem para escolher a Democracia, a Justiça ecossocial e a Paz.